A credibilidade da informação

A produção de conteúdos para os meios digitais provocou uma alteração significativa na relação entre os produtores e os consumidores de informação.
A indústria dos media deixou de ter o exclusivo de edição e os produtores – como por exemplo os jornalistas – partilham o estatuto com um número indeterminado de outras pessoas.


Através de blogues, páginas pessoais, serviços de informação e até mesmo sites de cariz noticioso, o número de produtores de conteúdos teve um “boom”.

De inicio os meios tradicionais reagiram com ostracismo.
Com a percepção da relevância e a competição provocada por esses produtores, a indústria dos media alterou a estratégia e passou do “desprezo” à associação: “afinal são uma oportunidade, como tirar partido desse meio?”

A acompanhar esta evolução apostou-se em plataformas abertas com serviços de alojamento e partilha de conteúdos. A designada web 2.0.
Incentiva-se a produção de conteúdos. Qualquer pessoa pode ser produtora de informação e, por outro lado, a partilha desse conteúdo enriquece a oferta. Em quantidade e qualidade.
Alarga-se o número de utilizadores e de conteúdos. Há mais tráfego (mais publicidade) e oportunidades de negócio.
Uma boa ideia, como o You Tube, pode ultrapassar em muito pouco tempo a audiência do mais conceituado órgão de comunicação social.

Uma das consequências deste processo é a questão da credibilidade. Em múltiplos sentidos e situações:
Os jornalistas que são desmentidos por outras pessoas que conseguem aceder à edição de conteúdos.
Os políticos e outras figuras públicas que passam a ser “vigiados” por muitas mais pessoas e que, ainda por cima, têm acesso a muito mais informação.
Por último, credibilidade também por parte da nova vaga de produtores de conteúdos, anónimos, identificados mas sem perfil, com uma presença fugaz, não sujeitos a regras determinadas por ordens profissionais, desconhecedores de técnicas de recolha de informação .... a multiplicação de citações, o passa-a-palavra até se perder o rasto da fonte. Uma mentira mil vezes repetida, transforma-se em verdade.
Calúnia, difamação, publicidade enganosa, propaganda, manipulação ... são situações frequentes.

Um consumidor mais desatento é, frequentemente, enganado, iludido e sem hipótese de protestar.
Mesmo os que têm mais experiência, até profissionais dos media, são muitas vezes ludibriados.

Face a estas circunstâncias, devem ser desenvolvidas técnicas que ajudem a perceber o nível de credibilidade de muitos desses conteúdos. No entanto, nem sempre é possível confirmar a informação, ou atestar a credibilidade de quem produziu esses conteúdos. Nestes casos, o indicado é seguir a regra base do jornalismo: ignorar, nunca usar estes dados.

São vários os procedimentos que ajudam a avaliar a credibilidade de uma informação.

Em primeiro lugar, deve-se tentar perceber quem é a fonte. 
Se é um órgão  de comunicação social conhecido, o olhar deve ser dirigido para a assinatura, se o artigo está assinado, se é de opinião e quem a produz: um especialista ou alguém que não se conhece.
Pelo facto de a informação ser dada por um órgão de comunicação social conhecido não garante que seja correcta embora, dê garantias de maior credibilidade. No caso de se pretender utilizar os dados para a produção de um novo conteúdo, convém, sempre, tentar confirmar a informação e proceder à auscultação das pessoas visadas ou do contraditório.

Se nunca teve conhecimento da existência desse órgão de comunicação social, pode verificar se tem ficha técnica, se está registado – no caso de Portugal o registo é na Entidade Reguladora para a Comunicação Social e pode ser consultado na base de dados de “Publicações Periódicas Registadas na ERC” disponível na página do Gabinete para os Meios de Comunicação Social
http://www.gmcs.pt/index.php?op=bd_erc&bid=11

Pode-se tentar descobrir a entidade proprietária, se tem jornalistas e se possui outros órgãos de comunicação social.
Há ainda a possibilidade – quase sempre a mais adequada – de tentar descobrir o e-mail ou o número de telefone e estabelecer um contacto directo.

Por último, um conselho que se aplica a todos os casos de edição digital: o conteúdo está actualizado? o projecto é fugaz ou tem continuidade?, as técnicas de edição mostram que se trata de alguém com um perfil profissional?, o volume dos conteúdos mostra que é mais do que um projecto pessoal?, tem publicidade institucional, de organizações credíveis?

No caso das páginas pessoais o processo é mais complexo.
Uma hipótese é obter informação através da empresa que aloja o site fornecer ou o contacto da entidade que gere a página.
Outra possibilidade é através do nome da página ou do domínio.
Em Portugal o registo tem regras muito precisas e uma das possibilidades é avaliar se o nome está registado como uma marca (pode consultar a base de dados do  INPI http://www.marcasepatentes.pt/  ) e tentar descobrir o proprietário. 

Para se descobrir dados através do registo do domínio, a consulta em alguns sites, (como por exemplo o da FCCN, https://online.dns.pt/site/publico
ou o Domínios.pt  http://www.dominios.pt/register.aspx ) ajudam a descobrir a entidade proprietária e os responsáveis administrativos e técnicos da página.  
No caso do domínio ser internacional, a consulta pode ser feita em register.com http://www.register.com/ ou AllWhois.com http://www.allwhois.com/.

Caso nenhuma destes caminhos dê resultados satisfatórios e esgotadas as alternativas de um contacto directo, faça uma pesquisa com o nome do site.
Através dos resultados avalie se o site ou o artigo é citado, por quem e em que moldes, quais as referencias que são feitas e se há alguma pista que possa ser seguida, se há mais artigos do mesmo autor que estão a ser citados, se há referencias biográficas...

Saliente-se ainda que alguns domínios têm uma designação mais precisa. Os que terminam em “.edu” são, em princípio, de entidades relacionadas com a educação. Os terminados em “.org” são de organizações não comerciais. Se o site em causa tem algum destes domínios pode facilitar a tarefa de pesquisa. Por exemplo, é vulgar as universidades terem o e-mail dos professores e investigadores.

Os blogues também exigem um grande esforço e nem sempre os resultados são satisfatórios.
Na grande maioria das plataformas de blogues é solicitado ao autor que preencha o seu perfil. Os dados não são necessariamente verdadeiros, nome do autor do blogue pode ser um pseudónimo. Alguns deixam um contacto por e-mail, muito poucos.

Caso se pretenda um contacto directo uma das possibilidades é fazer um comentário no post mais recente e perguntar como se pode contactar o autor.
Outra pista é seguir o caminho das fotos. Se estão alojadas em alguma plataforma de fotos e quem é o autor da galeria de fotos.
Por regra, os blogues têm uma lista de inks de outras páginas. Pode-se avaliar através desta lista quais as preferências do autor do blogue e se, também ele, é citado em outros blogues.
Um outro modo de aferir a credibilidade é pesquisar a veracidade de outras afirmações prestadas pelo autor do blogue. Se a descrição corresponde ao que ocorreu ou se está distorcido, filtrado por uma perspectiva relacionada com algum interesse. Muitas vezes a linguagem utilizada é esclarecedora desse posicionamento.

Apesar de um artigo num blogue parecer credível, nunca se deve confiar em absoluto nessa informação. O mesmo sucede com as páginas pessoais.

Por último, a voragem da “actualidade”. A concorrência é cada vez maior. Entre os meios profissionais e também as redes sociais que, com frequência, são os primeiros a publicar notícias. O Twitter é um bom exemplo de uma rede que pode ser imbatível no breaking news.
Perante esta voragem, os jornalistas devem ter uma preocupação acrescida em relação às fontes de informação. São inúmeros os casos em que foi dado crédito a informação não verdadeira.
O procedimento é igual a qualquer outro processo. É necessária a confirmação da notícia e o cruzamento de várias fontes. É imperativo resistir à tentação de “replicar” essa informação sem a sua validação.

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