- as redes como fontes de informação

Se as redes sociais são óptimas plataformas para a difusão de conteúdos e atingir novos públicos, também não são despicientes como fontes de informação. 

A percepção desta relevância é de tal forma assumida por algumas destas redes que chegaram a criar secções específicas para o chamado “jornalismo do cidadão”. Veja-se o exemplo do Citizen Tube do YouTube. É um canal com milhares de vídeos de “breaking news capturados por fontes não tradicionais”.
 De modo a tirar o máximo partido desta relação entre os “cidadão repórter” e os media tradicionais, o You Tube desenvolveu uma plataforma em que os utilizadores podem submeter vídeos de interesse jornalístico. Por outro lado, a plataforma permite a gestão deste conteúdo por parte dos media.

Por se tratar de modelos muito dinâmicos, globalizados e todos os dias com novas capacidades, refiro apenas três exemplos de como as redes sociais foram utilizadas como fontes de informação.

Novos comportamentos:
Um jovem actor de uma telenovela da TVI, Francisco Adam, faleceu num acidente de viação. Foi na noite de 16 de Abril de 2006. Um sábado. 
A notícia não teve grande destaque nos media tradicionais no Domingo nem na segunda-feira. Apenas um diário deu relevo assinalável com chamada à primeira página. Os meios digitais tiveram o mesmo comportamento. 
Nos fluxos de informação a que os jornalistas recorrem com frequência – agências de notícias, media que marcam a agenda – este tema foi pouco destacado.
No entanto, no Domingo e em particular na segunda-feira, aumentou significativamente o número de sms, as pesquisas com o nome do actor e imensas referencias em blogues. Em 2006, Francisco Adam foi a personalidade mais pesquisada na Internet em Portugal, com 186 mil utilizadores únicos.
Uma parte relevante da população queria informação que os media, involuntariamente, censurava. 
Por outro lado, porque os jornalistas não dão – ou não davam? – particular atenção a estes processos de comunicação electrónica, estavam a perder uma excelente oportunidade de cativar a atenção de um novo público.
Só na terça-feira – 48 horas após o acidente – é que os media perceberam o que se passava e espelharam a dimensão que o fenómeno estava a atingir junto de uma parte da população. 
Depois, no que se transformou numa regra, surgiu o frenesim e o espectáculo com emissões em directo do funeral.



Segundo exemplo: contornar a censura - as eleições no Irão em Junho de 2009.

A informação é controlada pelas autoridades oficiais. Uma parte significativa da população é jovem – dois terços tem menos de 30 anos -, e apoiou um candidato reformista. 
Mousavi foi derrotado mas o resultado foi contestado. Os apoiantes de Mousavi estabeleceram uma rede de contactos por sms mas as autoridades iranianas cortaram esse serviço.
Nos primeiros dias os jornalistas estrangeiros podiam fazer reportagens das manifestações mas foram depois impedidos.
Para contornar a censura e comunicar o que, alegadamente, se estava a passar, os movimentos de contestação provocaram um fluxo enorme de mensagens através do Twitter, blogues e plataformas de partilha de vídeo e fotos.
No dia 15 a hashtag #iranelection foi o tema do dia. O Twitter tinha agendado para o dia seguinte uma paragem para manutenção dos serviços mas, acabou por a adiar. A pedido do governo dos EUA, a paragem ocorreu quando era 1,30h no Irão.
Durante vários dias foi feito um acompanhamento quase ao minuto do que se estava a passar nas ruas de Teerão.
As manifestações, a violência provocada pela polícia, o ataque à universidade, a contestação dos jovens... a morte de Neda, as imagens da sua morte, captadas por um telemóvel e enviadas para as redes sociais, foram difundidas de imediato por todo o mundo e transformou-a num símbolo da contestação.
Uma cadência enorme de informação foi utilizada como fonte por muitos órgãos de comunicação social. Foi enorme o impacte nos media ocidentais. 
Jornais e televisões de referência a nível mundial utilizaram estes conteúdos e incentivaram os iranianos a pronunciarem-se. Outros meios davam a conhecer algumas páginas na Internet onde era colocado o conteúdo produzido pelos jovens iranianos. Fotos e vídeos eram constantemente associados a notícias. 
O efeito da rede, multiplicando os links, globalizou este conteúdo.
O que se passou no Irão, em menor escala e ee momentos diferentes, pode ser aplicado em outros países como a China e Cuba. Alguma da informação relativa a pessoas ou movimentos dissidentes apenas é conhecida através de blogues.
Na Espanha – um país democrático – foi também através destes meios electrónicos que se percebeu a tentativa do governo de Aznar de manipular a informação oficial sobre os atentados de 11 de Março, na véspera de um acto eleitoral. O que foi fatal para o então chefe de governo. 


Terceiro exemplo: os relatos da guerra.
Devido à situação muito específica dos conflitos armados e à dificuldade de acesso dos jornalistas, em algumas guerras é escassa a informação. Para não se falar de manipulada e censurada.
Neste sentido, as narrações pessoais ganham uma outra expressão, sem anular, é evidente, as dúvidas sobre a veracidade dos testemunhos.
Nos últimos conflitos armados são vários os casos de sites, blogues, páginas pessoais que disfarçaram o seu autor com outra identidade. Umas vezes como tentativa de influenciar a opinião pública, outras vezes, como mero exercício de sátira ou humor.
Apesar destas dificuldades, têm surgido algumas páginas reveladoras de situações narradas com alguma veracidade e sem outro tipo de interesse.
Com o surgimento da Internet, um destes casos foi na guerra da Jugoslávia, em 1999.
Ivanka Besevic, com 74 anos e antiga jornalista, narrou os primeiros dias da guerra num site. Segundo o seu próprio relato, quando dos bombardeamentos da Nato a Belgrado, “a minha filha vivia nos EUA e pediu-me para, diariamente, narrar a minha vida e da minha irmã. Ela publicava depois as mensagens que eu enviava por e-mail e chamadas telefónicas.”

Uma outra experiência relevante como fonte de informação, teve lugar na segunda guerra do Golfo, em 2003.
A Invasão do Iraque já era previsível e foi anunciada na Cimeira dos Açores.
Ao contrário da guerra anterior, em 1990, desta vez o que se passava em Bagdade era pouco conhecido.
Foi através de um blogue, http://dear_raed.blogspot.com/ intitulado Where is Raed? que Salam Pax foi descrevendo o seu quotidiano, da família e amigos antes da guerra até quatro dias após o inicio da invasão, a 24 de Março.
Where is Raed? foi uma importante fonte de informação e uma análise muito pessoal de um conflito onde, nos media internacionais, dominava a perspectiva ocidental.