Integração de Redacções

Foram poucos os meios de comunicação social online criados em Portugal com uma estrutura própria. 
A grande maioria tinha uma presença offline.
Jornais, rádios e televisões criaram pequenas estruturas separadas que editavam conteúdos nos respectivos sites.

Em alguns casos nem sequer com o mesmo alinhamento editorial apesar de a marca ser a mesma. 
Noutros casos, os conteúdos nos sites eram definidos de modo segmentado, com vários responsáveis, de acordo com a estrutura da organização offline. Notícias, programas, entretenimento, programação... 
Na verdade, usavam apenas o online como uma extensão da actividade offline. Para divulgar a edição impressa do jornal, a emissão online de rádio e TV, arquivos e pouco mais.


Por outro lado, a generalidade dos jornalistas teve uma reacção adversa ao online. Era a fase do medo. Receavam a perda do posto de trabalho ou exigiam receber mais se produzissem conteúdos para outro suporte.

De certa forma, a equipa do online era pária, nesses meios jornalísticos. Eram os jornalistas de “segunda categoria”.

Da recusa inicial em reconhecer importância a esses conteúdos digitais, os meios de comunicação social tradicional passaram, depois, para uma fase de “vizinhança”, com a criação destes núcleos de produção.

Com a evolução da Internet, o crescimento do número de acessos, a melhoria da qualidade dos conteúdos e o reconhecimento da importância do jornalismo online, começou a haver uma aproximação entre as duas Redacções. 
A convergência estendeu-se à produção de conteúdos conjuntos, ao aproveitamento da complementaridade entre o online e os outros suportes e da interactividade a partir da Internet. 

O modelo actual é o da integração de Redacções. Uma única Redacção. Informação aberta, agendas e desenvolvimento conjunto. Produção de conteúdos para todas as plataformas (rádio, jornal, televisão, computador, telemóvel, aplicações para IPhone ou IPad...) com a devida adaptação tendo em conta a especificidade de cada meio.

Primeiro o medo, depois a vizinhança e agora a integração. 


Em Portugal este percurso foi estudado por Hélder Bastos em Da implementação à estagnação: os primeiros doze anos de ciberjornalismo em Portugal (documento em pdf)

Um dos casos paradigmáticos desta transformação foi o Grupo Impresa, em particular a SIC.
Passou pelas várias fases referidas por Hélder Bastos na primeira década do jornalismo online em Portugal e constitui uma forte aposta de Pinto Balsemão. Em 2007 o líder do Grupo afirmou que “até 2009 queremos que as receitas de multimédia representem 10% do total das receitas do grupo Impresa”. (…)“A Impresa vai deixar de ser um grupo de media para ser um grupo multimédia”.
Para atingir estes objectivos uma das estratégias foi a fusão das Redacções e a valorização dos conteúdos digitais, conforme é relatado no Meios&Publicidade: 
Na SIC – onde a estratégia multimédia há muito que tem vindo a dar passos, com o site, a SIC Portátil, o mobile TV, os sites wap, entre outros – a viragem será reforçada. “A partir de Setembro a redacção da SIC será a primeira redacção multimédia do país”, avança o responsável. “A SIC mais do que uma televisão é uma marca multiplataforma”, sintetiza.
No Expresso, “fábrica de informação de qualidade”, a integração das redacções on e off line resultou numa “política de online first”, ou seja, “a cacha já não fica para a edição de sábado”. Os sites da AutoSport e do Blitz foram igualmente renovados sendo que “qualquer um deles tem pageviews na ordem de um milhão”. No caso da revista musical, Pinto Balsemão adianta que o online “já representa 30% da publicidade total do título”. “O Blitz é um negócio rentável por si só”, conclui.

Quanto ao esforço de fusão das Redacções na SIC, ainda segundo a Meios&Publicidade, "“Os jornalistas da SIC vão passar a redigir primeiro as notícias para o suporte online, para depois fazerem as peças que passam na televisão. (...) “Uma redacção multimédia é muito mais inteligente do ponto de vista de negócio”, justificou Ricardo Costa, director-adjunto de informação da SIC, quando falava ontem aos jornalistas sobre a nova estratégia de organização interna da estação.
A estratégia vai ainda mais longe, uma vez que progressivamente, a televisão da Impresa vai também distribuir telemóveis 3G com câmara de filmar a jornalistas da redacção, para que estes possam recolher e enviar ficheiros que poderão uma vez mais ser utilizados em qualquer um dos suportes. O objectivo é dar “mais valor a cada uma das plataformas”, prossegue José Gomes Ferreira, sub-director de informação da SIC.”

Um outro exemplo da forte aposta da integração das Redacções e da valorização dos conteúdos digitais é o caso do EL País. Veja-se a mudança, nas palavras de dois responsáveis do El País:
Gumersindo Lafuente (ntigo director do ElMundo.es, agora Director-adjunto do El País): “La misión es muy clara: el futuro es digital. Tenemos que conseguir que la redacción trabaje pensando que la primera salida sea siempre la web. Y no sólo porque es la más inmediata, sino porque además, es estratégicamente prioritaria.”

Borja Echevarria (Chefe de Redacção do El País): “El objetivo consiste en que toda la redacción piense en la web primero, no sólo los de la redacción web. El País tiene una redacción con muchísimo talento y tenemos que aprovechar su talento, sus contactos y sus fuentes, y conseguir que eso florezca en la red, no sólo en el papel.”

Esta integração das Redacções do El País teve lugar num processo mais profundo, desencadeado no final de 2009.
Numa declaração aos directores e jornalistas, Juan Luis Cebrián “un nuevo modelo organizativo" que persigue modernizar la estructura de producción del diario y poner fin a un formato integrado verticalmente que es "anticuado, obsoleto y esclerótico". El nuevo sistema se materializará el próximo 1 de marzo.
De esta manera, EL PAÍS se convertirá en una empresa de producción de contenidos de calidad para papel, Internet y teléfonos móviles. Para llevar a cabo este proceso Cebrián anunció la integración de las redacciones de papel y de Internet.