Linguagem

Um conteúdo digital ultrapassa a tradicional diferença entre Imprensa, Rádio e Televisão.
Um jornal digital recorre a texto, som e imagem,  fixa ou em movimento,  permite a utilização de links, acessos a base de dados, download de documentos... e incentiva a participação do utilizador.

O utilizador não é um mero consumidor, sujeito passivo. Pelo contrario. É participativo.  Pode e espera interagir. Escolher e, até, produzir. 
Cabe ao produtor de conteúdos tirar partido desta situação e também promover a interacção.  O imediatismo, o funcionamento de modo aberto e as inúmeras ferramentas que possibilitam a interactividade são características que devem ser potenciadas.

A linguagem de um artigo online não está, assim, determinada pelas regras da imprensa, não tem as limitações de uma reportagem de rádio ou televisão.
Um conteúdo on-line, bem conseguido, é resultado da utilização correcta destes três suportes: texto, som e imagem.
Por outro lado, é diferente o comportamento dos utilizadores. Ler uma notícia num formato de papel é diferente de um monitor. Num formato web, são menos os que lêem o texto todo, preferem fazer um varrimento com o olhar. Não existe linearidade.
É um comportamento muito parecido com o de uma pessoa em frente a uma banca de jornais.

Segundo um especialista em usabilidade, Jakob Nielsen, o utilizador deverá ler cerca de 20 por cento do texto. Se o utilizador procurar conteúdo noticioso, a percentagem é um pouco maior. Um estudo,  EyeTrack07 do Instituto Poynter aponta para 77 por cento mas estes resultados são postos em causa.
eystrackingO próprio processo de leitura é diferente de um jornal. Ainda segundo os estudos de Jakob Nielsen, o padrão de leitura é, na grande maioria dos casos no formato “F”.
Começa sempre pela parte esquerda.

O utilizador faz um movimento horizontal, depois vertical, do lado esquerdo, segue-se um outro movimento horizontal, mais pequeno e, por fim, um varrimento na vertical, de novo no lado esquerdo do monitor.
Face a este comportamento e às virtualidades do conteúdo num formato online, a formatação de uma página web deve libertar-se das regras dos outros meios de comunicação e estabelecer uma linguagem própria.

Jornalistas ou produtores de conteúdos que tenham experiência em outros meios, quando da concepção de um artigo online, devem fazer um esforço criativo, de combinação dos vários suportes, e recorrer a uma linguagem própria e adaptada ao comportamento dos utilizadores.

A estrutura de uma notícia não difere: título, lead e desenvolvimento da notícia, com a estrutura de relevância de “pirâmide invertida”. Do mais para o menos importante. No entanto, a forma de dar corpo a esta “pirâmide invertida” já pode ser muito diferente.
É verdade que muito utilizadores preferem um texto que sintetize a história mas, por outro lado, rejeitam um processo repetitivo de informação. O que sucede, habitualmente, na pirâmide invertida numa notícia de um jornal em que o antetítulo, o título e o lead repetem a informação e até palavras.
Neste sentido, há quem recomende uma estrutura diferente. Concentrar esta informação num único parágrafo, o lead, onde a primeira frase funciona como título.

Um exemplo. Esta é uma notícia publicada num site em 18/09/2009.
“Portugal
PJ e Ministério Público fizeram buscas nas casas de Dias Loureiro e Arlindo Carvalho
A PJ e o Ministério Público realizaram buscas nas casas de Dias Loureiro e de Arlindo Carvalho. Uma notícia adiantada pela TVI.
Segundo as informações que estão a ser avançadas na última quinta-feira e sexta-feira foram revistadas as casas do ex-conselheiro de Estado e administrador do BPN e também do accionista Arlindo Carvalho, antigo ministro da Saúde.
Estas diligências foram feitas no âmbito do BPN, onde se investigam irregularidades na gestão do banco e onde já foram constituídos arguidos Oliveira e Costa e Dias Loureiro.
Na próxima semana, devem realizar-se novas audições.”

Primeiro problema: o antetítulo não aparece no feed de RSS. A distribuição deste conteúdo para outros sites e plataformas – por exemplo num telemóvel -  perde logo o contexto – “Portugal”.
Segundo problema: o título é muito grande e pouco apelativo
Terceiro problema: o título e o lead são praticamente idênticos.
Quarto problema: o texto da notícia podia ser mais objectivo, concreto e, consequentemente, menor.
Quinto problema: dois parágrafos são grandes e comunicam mais do que uma ideia/mensagem.

Proposta alternativa, baseada na mesma informação:
Buscas nas casas de Dias Loureiro e Arlindo Carvalho
A Polícia Judiciária e o Ministério Público realizaram as buscas na quinta e na sexta-feira na sequência do processo do BPN, noticiou a TVI.
Dias Loureiro foi conselheiro de Estado e administrador do BPN e é arguido no processo.
Arlindo Carvalho foi ministro da Saúde num governo liderado por Cavaco Silva e é accionista do BPN.
A investigação deve-se a alegadas irregularidades na gestão do banco. 
Novas audições estão previstas para a próxima semana.

Com esta alteração procurou-se:
- Evitar antetítulo. Se esta notícia estiver em destaque, por exemplo na homepage, pode ter aí um antetítulo. Mas no interior do artigo não é necessário.
- Título mais curto e mais apelativo. Por outro lado, as primeiras palavras do título são mais fortes e, espera-se, captem mais a atenção dos utilizadores. Em média, um título recolhe menos de um segundo da atenção do utilizador.
- Os parágrafos começam com referencias mais concretas. Foram excluídas frases como “Segundo as informações que estão a ser avançadas” que captam pouco a atenção do utilizador. Ao fazer o “varrimento” do texto com o olhar o utilizador lê apenas as primeiras palavras de um parágrafo. Se captarem a sua atenção pode ler o resto. Textos vagos não despertam a curiosidade.
- Mancha gráfica mais leve. Os parágrafos são mais pequenos e as frases mais curtas. São poucos os casos em que uma frase transmite mais do que uma ideia. 
A apresentação gráfica é determinante. Uma mancha muito pesada de texto é dissuasora.
Segundo o estudo “Eyetrack III”  as notícias com parágrafos mais curtos têm o dobro da atenção visual em comparação com os textos com parágrafos mais longos.
- Menor repetição. 
- O texto é mais pequeno. Segundo o estudo “Eyetrack II” as histórias breves são três vezes mais lidas que as narrativas longas. Para superar a necessidade de alguns utilizadores, desejarem mais informação, uma possibilidade é relacionar notícias anteriores sobre o mesmo tema.

Outras opções poderiam ter sido tomadas. Depende da narrativa de cada um e também do “livro de estilo” de cada órgão de comunicação social. Por exemplo, alguns recorrem ao “bold” para  destacarem algumas partes do texto. 
No caso, se este recurso fosse utilizado, estaria a “bold” as referencias “processo BPN” e os nomes ou os cargos desempenhados pelos visados.
Outra possibilidade, caso o texto fosse maior, era criar uma narrativa em blocos. 
Em alguns órgãos de comunicação há um layout próprio para estas situações. No caso, poderia ser o corpo da notícia acompanhado (ou seguido) de dois blocos. Um com elementos sobre Arlindo de Carvalho, outro acerca de Dias Loureiro.
Se o tema fosse extensamente desenvolvido, o mais adequado era criar várias páginas, de acordo com cada tema. Na página principal, de entrada, deve estar uma síntese e de seguida hiperlinks para cada uma das páginas. O utilizador escolhe o caminho que quer seguir.

A utilização de fotos ou ilustrações também está determinado pelos “livros de estilo”. 
A escolha da foto (se houver, na página de destaques) é fundamental para atrair a atenção dos leitores. 
A imagem pode ser um pormenor da fotografia que está no interior do artigo mas, deve ser apelativa.
No interior do artigo, a arrumação mais usual dos conteúdos é a foto estar acima ou ao lado do lead.
É também adequado que as fotos que ilustram o interior do artigo tenham um formato único. 
Não provocam um efeito de estranheza e deixa de haver um critério aleatório que não é percebido pelo utilizador.
Por outro lado , esta uniformização permite saber qual o tamanho aproximado do texto que acompanha a foto para evitar que fique muito espaço para preencher ou que o texto seja excessivamente longo.
Sempre que possível recorra à legendagem da foto. Alguns utilizadores focam o olhar na imagem e acabam por ler a legenda em detrimento do corpo da notícia.

As fotos devem ter um “alt”. Um texto que pode ser lido quando se passa com o “rato” por cima da imagem. Visa, essencialmente, ajudar a compreensão do artigo a invisuais e pode também ser um processo simples de dar a conhecer o autor da foto. 

Outras regras podem e devem ser seguidas.
A primeira é a uniformização de critérios. 
Procedimentos idênticos em situações idênticas. 
Se há um artigo que permita regressar à secção respectiva, os outros artigo devem ter também esta funcionalidade. 
Se a hiperlinkagem é na foto do destaque, deve ser assim em todos os destaques. Se um ícone de vídeo serve para aceder ao conteúdo, esse ícone deve permitir igual função em todas as circunstâncias em que é utilizado.
O mesmo sucede com a disposição dos menus.

Romper ou colidir com um hábito é desorientar a navegação do utilizador e criar uma sensação incómoda. Quando isto sucede, convém que em todas as páginas esteja referida a secção, onde pode regressar ou então à homepage. Uma estrutura de orientação: onde estou e como posso navegar para a página principal. 

Tendo em conta esta necessidade de uniformização, a estrutura dos artigos também não deve variar.
O mais vulgar é o título alinhado à esquerda. Em baixo a foto. Ao lado, ou em baixo da foto, o lead. Segue-se o corpo do artigo. Esta estrutura corresponde ao “F”, ao movimento habitual do olhar do utilizador.
O texto deve ser alinhado à esquerda e numa única coluna.

Em muitos casos, no interior do artigo é frequente encontrar ilustrações, vídeos, citações e destaques.
artigos relacionados numa noticia da TSFOs destaques em texto devem ser bem diferenciados. Com uma formato de letra diferente, cor de fundo...

É também habitual, no final do artigo, existirem links para artigos relacionados, ícones para partilha do conteúdo e, em alguns casos, comentários dos utilizadores.

Com a aposta crescente em conteúdos multimédia, é cada vez mais frequente o recurso a relacionados de vídeos, sons ou galerias de fotos.

Uma larga maioria só vê o titulo, a imagem (se houver) e depois faz um varrimento com os olhos.
Tendo em conta este comportamento, deve saber destacar em termos gráficos o mais relevante, tem de ter uma utilização equilibrada e coerente de alguns elementos gráficos (tamanho uniforme das imagens, o mesmo tipo de letra em todos os artigos, evitar muitos sublinhados ou itálicos e listagens de links....). Evite frases em itálico. A leitura é difícil.

Muitas poucas pessoas fazem “scroll”,  arrastar a janela para baixo, para ver o restante conteúdo. 

Face a esta situação, os elementos mais relevantes devem estar visíveis quando se abre a janela onde está o artigo.
Evite o recurso a “pop-ups” para mostrar conteúdos porque a grande maioria dos “browsers” (Opera, Netscape, Internet Explorer...) têm um mecanismo de protecção que impede a abertura automática destas janelas.

Duas notas finais sobre a redacção de uma notícia. 

A temporalidade num conteúdo on-line não é idêntica à de igual conteúdo na rádio, televisão ou jornal.
Porque a notícia fica arquivada e pode ser reutilizada, o autor do artigo deve ter em conta a referencia a elementos como “ontem”, “amanhã”..... Quando esta notícia for associada, algum tempo mais tarde, deixa de fazer sentido este  tipo de referencias. O mais indicado é substituir o “ontem, amanhã...” pelo dia/mês.

Noutras circunstâncias, quando se está a fazer uma notícia sobre um acontecimento que acabou de ocorrer é usual o recurso a estas palavras: “há minutos...; acabou de ser comunicado que....”. 
Algum tempo depois o texto deve ser reformulado. Estas referencias temporais devem ser substituídas pelas horas: “Às 17 horas foi lida a sentença. Meia hora depois, o advogado do réu disse aos jornalistas...”
Um outro dado relevante quando da criação de um artigo noticioso é simplificar o mais possível a tarefa do utilizador.

Um dos modos de conseguir esta tarefa é através da enumeração. Em vez de um texto longo, se for possível, pode-se transmitir a mesma informação recorrendo a uma lista de frases onde, cada uma, faz a descrição breve de um tema/ideia. 
Este tipo de narrativa é muito frequente para informações úteis, “o que se deve fazer”, “como poupar dinheiro” ...., ou para referencias cronológicas, “evolução do caso....”